Apanha da Azeitona!

02 dezembro 2009


Este ano, é ano de azeitona!
As bagas negras luzem em abundância nos ramos das oliveiras.
Parece que este ano, os olivais ganharam a magia e o encanto de outros tempos!

Antigamente era assim:
O som do búzio rompia o silêncio da madrugada!
Nas ruas ao ouvir-se este sinal, começava logo a sentir-se alegre alvoroço de mistura de vozes e sinais de raparigas que se saudavam amigavelmente.
As mulheres e raparigas, de cesta no braço com a merenda, com o xaile traçado no peito e o lenço na cabeça, lá iam em grande alegria a juntar-se ao grupo de homens e rapazes que as aguardavam de vara ao ombro.
Reunido o grupo, lá iam para os olivais.
Nos olivais não havia “mãos a medir”, cada um cumpria escrupulosamente a sua obrigação. Os homens com as suas mãos calejadas iam ripando os ramos onde negrejavam as mil bagas luzidias.
Também havia horas admiráveis de alegria e encanto, sem quebrar o ritmo contínuo e produtivo de trabalho.
Por vezes, nos dias lindo de sol, que, não raro o Outono nos oferece, uma voz sonora e harmoniosa se erguia nos ares entoando uma cantiga:
A folha da oliveira
Quando cai no lume estala
Assim é o meu coração
Quando com o teu não fala.

4 comentários:

des-encantos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
des-encantos disse...

Sobre a azeitona e a sua apanha em Alviobeira tenho duas memórias bem vivas ainda: a 1ª, o lagar, o velho lagar que ainda ali está -e que espaço/museu(?) multicultural não daria...ou restaurante típico!-, o calor intenso e o aroma forte do azeite morno ainda,o barulho contínuo das máquinas, a medição e graduação... e os serões longos assistindo bem de perto a toda a sequência.A luz gerada em pleno lagar: não havia electricidade. As tulhas numeradas, as carroças em fila...enfim.
A 2ª, os ranchos para a 'apanha' que vinham dos concelhos de Ansião/Alvaiázer e Oleiros(?)..Pernoitavam nas instalações da Famiia Faria, e de manhã cedo, homens e mulheres saiam pra apanha cantando canções que ...hoje poderemos ainda ouvir convosco. Algumas. Penso que falta uma mão delas. A faina era acompanhada toda ela de cantigas por vezes à `desgarrada'.
O regresso fazia-se já noite dentro, seguindo os carros de bois carregando a 'dita' azeitona já limpa. Porventura a actividade mais marcante de então anos 40 a 70..e se calhar bem antes.

Céline Henriques disse...

Este post está lindo!
É autentico... verdadeiro!
Por momentos consigo ouvir o búzio tocar e ao mesmo tempo cheirar a azeitona...
É impressionante o poder das palavras: também me fizeram viajar!

Marisa Mouzinho disse...

Boas!

Os meus avós são de Alvaiazere, e sempre ouvi dizer principalmente aos meu avós paternos que vinham às temporadas para a azeitona, ceifa para a limpa etc... iam em grandes ranchos para a Cortiça onde ainda hoje lá está uma grande quinta com grandes olivais lugar esse que fica entre o tojal e Alvaizere. Não sei se alguma vez o avô João cheqou a vir aqui para Alviobeira. Mas ía sim às temporadas para o Alentejo para a ceifa, normalmente ía sozinho, cheqou uma vez a levar o filho mais velho, meu tio, que ainda hoje fala do duro que foi e o que lá sofreu.
As influências das outras terras eram notórias na casa dos meus avós, principalmente as alentejanas. O avô João completaria este ano 100 anos.
Das coisas que "apreendemos" no rancho eram pratícas comuns na casa deles.
Lembro-me quando a chegava a hora do almoço a avó Joaquina chamava-nos assim:
- "meninos vamos jantar!" e eu pensava (coitadinha da avó, está mesmo velhota) eu emendava-a logo, e ela carinhosamente dizia "desculpa amor a avó enganou-se".
Hoje sei o que ela estava a dizer, é que para ela o almoço era entre as 9.00h e as 10.00h porque tinham começado a trabalhar lá para as 7.00 h jantavam ao meio dia merandavam às 16.00h e depois ceavam. De facto era uma vida dura.

Foram duas pessoas que me marcaram muito e de quem tenho muita saudade.


Beijinhos
Marisa